O Cordeiro que Deus Providenciou

O tema do Cordeiro é um dos mais belos da Palavra de Deus. Ele permeia toda a Escritura, de Gênesis a Apocalipse. Em Gênesis 4, vemos o Cordeiro como um tipo quando Abel ofereceu a Deus um primogênito de seu rebanho. Ele compreendeu que Deus havia derramado o sangue de uma vítima inocente para vestir seus pais e ofereceu uma vítima inocente a Deus, simbolizando o Cordeiro que havia de vir. Em Gênesis 22, vemos a profecia do Cordeiro. Deus proveria o Cordeiro, e esse Cordeiro precisava ser um homem para a humanidade. Em Êxodo 12, vemos uma bela imagem do Cordeiro imolado e do seu sangue aplicado. Em Isaías 53, vemos o Cordeiro personificado; em João 1:29, vemos o Cordeiro identificado; em Apocalipse 5, o Cordeiro é magnificado; em 22:1, o Cordeiro é glorificado. 

Ao analisarmos a trajetória do Cordeiro nas Escrituras, aprendemos que em Gênesis 4, o Cordeiro representa um indivíduo; em Êxodo 12, uma família; em Levítico 16, uma nação; e em João 1:29, o mundo inteiro. Como o Cordeiro de Deus, o Senhor Jesus foi manso, sem pecado e o sacrifício perfeito. Em 1 Pedro 1:18-20, lemos: “Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que vocês foram resgatados da sua maneira inútil de viver, herdada de seus antepassados, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mácula. Ele, de fato, foi preordenado antes da fundação do mundo, mas se manifestou nestes últimos tempos por amor de vocês.”   

Ao analisarmos Gênesis 22, podemos observar este capítulo histórico de diversas maneiras. Podemos examinar suas muitas lições práticas sobre uma fé provada ou o excelente exemplo de um relacionamento entre pai e filho. Há também um aspecto profético ao qual gostaria de chamar nossa atenção.

Fundo

Esta história começa alguns capítulos antes, quando Deus chamou Abrão pela primeira vez, prometendo que seus descendentes seriam tão numerosos quanto as estrelas do céu. Abrão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Quando Abrão tinha noventa e nove anos, o Senhor lhe deu um sinal da aliança e mudou seu nome de Abrão (Pai exaltado) para Abraão (Pai de uma multidão). A dificuldade era que Abraão não tinha filhos até então! Sua esposa, Sarai, havia tomado a iniciativa, dando-lhe sua serva, Agar, para que ela tivesse um filho com ele, mas esse não era o caminho da fé, nem o caminho de Deus! No capítulo 21, aprendemos que Agar e seu filho Ismael são expulsos depois do nascimento de Isaque, o filho da promessa. O nascimento de Isaque é uma figura do nascimento do Senhor Jesus, enquanto Agar e Ismael são uma figura da lei. 

Neste capítulo, três figuras proféticas apontam para o Cordeiro de Deus. Todos os tipos e ilustrações têm suas limitações, mas há muito o que apreciar neste capítulo.

Abraão, o Pai

Nosso capítulo começa com Abraão sendo testado por Deus (v. 1-2): “Depois dessas coisas, Deus pôs Abraão à prova e lhe disse: “Abraão!” Ele respondeu: “Eis-me aqui.” Então Deus disse: “Tome seu filho, seu único filho, Isaque, a quem você ama, e vá à região de Moriá. Ofereça-o ali em holocausto num dos montes que eu lhe indicarei.”“ Humanamente falando, esse teste foi pessoal, intencional, doloroso e desconcertante. Ao longo do teste, aprendemos sobre a obediência inabalável de Abraão e sua completa confiança em Deus. Quando lemos Hebreus 11:19, aprendemos que Abraão acreditava que ”Deus era capaz de ressuscitá-lo dentre os mortos, de onde também o recebeu em sentido figurado“. Provações e testes surgem ao longo de nossas vidas. A lição que aprendemos com Abraão é como reagir quando as coisas não fazem sentido para nós. Abraão é uma representação vívida de Provérbios 3:5-6: ”Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apoie em seu próprio entendimento; reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas”.” 

Abraão também é uma representação de Deus Pai entregando Seu Filho amado. Onde mais podemos encontrar um exemplo tão belo do que a entrega do Senhor Jesus no Calvário significou para o Pai?  No versículo 4, lemos: “Ao terceiro dia, Abraão levantou os olhos e viu o lugar ao longe”. O lugar é mencionado quatro vezes (22:3, 4, 9, 14).  Moriá significa “prevista por Deus” ou “escolhida por Deus”. Deus Pai sabia tudo o que estava reservado para Seu Filho amado no lugar chamado Calvário. O terceiro dia pode nos lembrar da ressurreição. Três vezes neste capítulo, lemos sobre o Pai e o Filho caminhando juntos (22:6, 8, 19), o que nos lembra da constante comunhão entre Deus Pai e Seu Filho amado. Além disso, Abraão tomou o fogo e a faca em Suas mãos (22:6). O fogo representa a provação e o julgamento santo, enquanto a faca representa a morte. 

Talvez seja bom mencionar que Deus pediu a Abraão que oferecesse Isaque como holocausto. No livro de Gênesis, todas as ofertas são holocaustos. Um holocausto é inteiramente para Deus. Deveria ser um aroma agradável (Levítico 1, 7). A importância reside no fato de que não pensamos em um substituto até que o carneiro seja apresentado. Isaque é uma representação do que o Filho representava para o coração do Pai: um aroma agradável! Lemos cinco vezes sobre a lenha que foi colocada sobre Isaque, que estava rachada. A madeira, nas Escrituras, frequentemente simboliza a masculinidade. Essa lenha rachada significava que era possível ver o interior. O Pai viu e apreciou as perfeições morais de Seu amado Filho como homem aqui neste mundo. 

Isaac, o Filho

Isaac é uma imagem do filiação do Senhor Jesus. Observe a descrição peculiar de Isaque: Teu filho, teu único filho gerado, Isaque (que significa riso ou alegria), a quem amas. Esta é a primeira menção de amor na Bíblia. Está significativamente ligada ao amor do Pai pelo filho!  Vemos que Isaque era o filho único de Abraão. Ismael também era filho de Abraão, mas Isaque era precioso, sendo o filho da promessa, o filho do amor de Abraão. Isso nos lembra que, no Evangelho de João, lemos sobre o amor do Pai pelo Filho sete vezes (João 3:35, 5:20, 10:17, 15:9, 17:23, 24, 26).

Isaac também é uma representação do Salvador em Sua imagem. sacrifício. Abraão colocou Isaque sobre o altar no lugar que Deus lhe havia indicado. Esse lugar nos lembra do que lemos em Lucas 23:33: “Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, ali o crucificaram”. O Monte Moriá ficava na mesma cordilheira onde o Calvário seria construído. Assim como Isaque foi a esse lugar, o Senhor foi ao lugar chamado Calvário para entregar a Sua vida como um aroma agradável a Deus!

Isaac nos lembra de servidão do Senhor Jesus também. Isaque não era um menino; provavelmente era um jovem de vinte e poucos anos. Ele poderia facilmente ter subjugado Abraão. No entanto, vemos que ele era submisso, até atuou como um servo Ao carregar a lenha, permitiu-se ser amarrado e colocado sobre o altar. Isso nos lembra de nosso Senhor Jesus, o servo perfeito que se submeteu à vontade do Pai, sendo obediente até a morte, a morte de cruz. “Ele decidiu ir para Jerusalém” e dizia: “Não seja feita a minha vontade, mas a tua!” No versículo 9, lemos: “Chegaram, pois, ao lugar que Deus lhe havia indicado. Abraão construiu ali um altar, arrumou a lenha, amarrou seu filho Isaque e o deitou sobre o altar, em cima da lenha.” Até este ponto em Gênesis, as ofertas eram mortas antes de serem colocadas no altar, mas Isaque foi colocado vivo. Isso nos lembra que ninguém tirou a vida do Senhor Jesus. Ele tinha o poder de entregá-la e o poder de retomá-la! Ele deu a Sua vida por nós!

Às vezes cantamos: “O amor te prendeu ao altar, o amor do Pai e o teu, por nós, ó Vítima incomparável, para que contigo pudéssemos brilhar. Tua riqueza entregaste, a ti mesmo livremente deste, tua vida em graça ilimitada, para que contigo pudéssemos viver.”

No Salmo 118:27, lemos: “Amarrem o sacrifício com cordas às pontas do altar”. Nosso Senhor foi amarrado por cordas de ouro, símbolo do amor ao Pai, e por cordas de prata, símbolo do amor ao homem!

O Carneiro – o Substituto 

No versículo 7, Isaque pergunta: “Onde está o cordeiro para o holocausto?” Esta é a primeira vez na Bíblia que lemos a palavra cordeiro! Podemos apenas imaginar como essa pergunta tocou o coração de Abraão, que respondeu: “Meu filho, Deus proverá para si o Cordeiro para o holocausto”. Isaque faria a pergunta, e João Batista a responderia anos depois, anunciando: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” 

Enquanto Abraão colocava Isaque sobre o altar, ergueu a faca, prestes a cravar em seu filho amado, quando o Anjo do Senhor o chamou do céu, dizendo: "Abraão! Abraão!" Ele respondeu: "Eis-me aqui". O Anjo disse: "Não estenda a mão contra o rapaz, nem lhe faça mal algum; pois agora sei que você teme a Deus, visto que não me negou seu filho, seu único filho". Abraão, levantando os olhos, viu um carneiro preso pelos chifres num arbusto. Tomou, então, o carneiro e o ofereceu em holocausto em lugar de seu filho. Abraão chamou aquele lugar de "O Senhor Proverá", como se diz até hoje: "No monte do Senhor se proverá". Para Isaque, houve um substituto, preso pela sua força nos espinhos. Isso nos lembra que, na força do Seu amor perfeito e obediência, o Senhor Jesus venceu o pecado, a morte e a sepultura! Ele foi o nosso substituto! O holocausto é para a glória do Pai, e o carneiro substituto fala da nossa redenção (1 Pedro 1:18-19, 3:18). 

É interessante notar que o versículo 5 conecta esse holocausto à adoração, sendo esta a primeira vez que lemos a palavra adoração nas Escrituras. Nenhuma palavra foi proferida quando Abraão ofereceu o carneiro como holocausto! A adoração era sobre o holocausto, não sobre Abraão ou Isaque. Nossa adoração não é sobre nós. Deve ser sobre o Filho. Quando adoramos o Filho em particular, estaremos preparados para louvá-Lo em público!

Mais adiante, lemos: “Por mim mesmo jurei, diz o Senhor, que, porquanto fizeste isto e não me negaste o teu filho, o teu único filho, te abençoarei e multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu e como a areia da praia; e a tua descendência possuirá a porta dos seus inimigos. Em tua descendência serão benditas todas as nações da terra, porque obedeceste à minha voz.” Aqui vemos pela primeira vez a palavra “obedecer” mencionada nas Escrituras. Neste belo capítulo, que nos fala do Cordeiro providenciado por Deus, encontramos amor, adoração, cordeiro e obediência, todos mencionados pela primeira vez. Todos os quatro são vistos conectados ao Cordeiro de Deus. 

Por fim, queremos observar a conexão com o Cordeiro, que é a Noiva. Depois que Isaque é devolvido a Abraão (uma figura da ressurreição), Rebeca, esposa de Isaque, é mencionada pela primeira vez no versículo 23. Em seguida, no capítulo 24, aprendemos como ela é levada até ele. Isso nos lembra que a Igreja é a esposa do Cordeiro. É tocante sermos lembrados do relacionamento íntimo no qual fomos inseridos porque Deus providenciou para Si o Cordeiro para o holocausto!